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sexta-feira, 25 de abril de 2008

68 macacos

Fantástico! Digitei "68 monkeys" no google e adivinhem só... Existe uma empresa com esse nome. Sérião. Juro. É uma coisa bizarra, para promover artistas do norte da Califórnia (EUA) e alinhados com a causa ambiental... mas -- quem se importa?

Aliás, falando em quem se importa...


Come torta!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Macaco de Israel

"Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria."
O macaco tinha se esquecido da cidade sagrada, mas não conseguia olvidar aquele salmo. Olhava para as duas mãos peludas com uma sensação curiosa de medo, mas não de culpa. Havia abandonado a capital sagrada para engajar-se nas lutas de Paris, para enfiar-se nas trincheiras profanas da pólis da luz. "Meu filho, essa batalha nada tem a ver contigo, um macaco de Israel". "Querida mãe, a estrela de David brilha na Europa tão forte quanto brilha na Judéia; deixa-me ir, e prometo que volto". A macaca velha deixara -- as recentes conquistas da Guerra dos Seis dias tinham derretido o coração dela. E cá estava ele, nas margens do Sena afugentando pombos. Chegara tarde demais, os rebeldes já tinham sido reprimidos. Não encontrava em lugar algum os olhos brilhantes dos revoltosos. "Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém", murmurava com tom irônico, "que se resseque o meu coração, a minha alma e todo o mais, menos a minha mão, para que nela eu ainda possa usar meus anéis faustosos". Tinha se tornado um filósofo, de repente, embaixo das nuvens francesas, descansando na sombra de Notre Dame, a senhora dos cristãos. Mas sabia -- os melhores filósofos são os árabes. Seu melhor amigo, macaco companheiro de uma infância gostosa passada no Neguev, era hoje um dos sufistas mais notáveis de Teerã (seu pai tinha sido um leal servidor do império Otomano, porém, e detestava os mitos abássidas e os sussurros a respeito de Imanes Ocultos). O islamismo permitia algumas loucuras a que o cristianismo e o judaísmo já tinham se tornado imunes, percebia. Mas o racionalismo francês não era imune a nada, e tinha levado o império carolíngio àquela situação tenebrosa -- jovens trancafiados em casa enquanto os gorilas de De Gaulle marchavam livres nas ruas reurbanizadas. Não que na terra de David a coisa estivesse menos enegrecida. O gás lacrimogêneo dos judeus, na terra sagrada de Jerusalém, era a própria atmosfera, e nas pedras desgastadas do último muro (dádiva do Imperador Adriano!, que tinha poupado ao menos aquele pedaço de relíquia, maldito seja o romano) as lágrimas de gerações se misturavam há seculos. Um casal passou por ele carregando duas malas de mão -- explosivos? Seria possível que a resistência ainda estivesse articulada? Bobagem. O mundo já tinha voltado seus olhos para a crise da França, a luta, para os seculares, já tinha sido ganha. Era assim que se fazia, nos países modernos. Um macaco de Israel, aquela batalha nada tinha a ver consigo mesmo. Sua mãe não estava enganada. E a estrela de David não brilhava ali tão forte quanto na Judéia -- ela mal brilhava. Aquela Europa agressiva, que expulsara os judeus no século XV, aquele continente ingrato. "Se eu não me lembrar de ti, tu não te lembrarás de mim também", concluiu, sorrindo. Levantou-se, mergulhou no Sena e nadou contra a corrente até a nascente oculta do rio. Percorreu os lençóis freáticos misteriosos, conheceu a origem da água do mundo e, quando voltou à superfície, já estava no Mediterrâneo. Glória ao nome desconhecido! Embarcou, sem ser visto, em um barco pesqueiro no Adriático. Navegou clandestinamente até a Anatólia, onde parentes distantes o receberam e o encaminharam a Israel montado em um camelo, como um rei vitorioso. Chegou a tempo das celebrações em homenagem ao aniversário de um ano da guerra de expansão -- vitória de Israel. Já não se via árabe nenhum sorrindo nas ruas. Golã, Sinai, Jordânia. Quando entrou em casa, sua mãe o abraçou como já não esperasse vê-lo com vida. "Convertestes os francos?", perguntou-lhe? "Não, minha mãe, não converti ninguém. Mas descobri que sou apaixonado por Jerusalém e jamais me esqueci da cidade sagrada. Minhas mãos não se ressecarão, porque não há nenhuma alegria que eu prefira à ela", disse. Sorriram, os dois com lágrimas nos olhos. Rezaram 68 vezes pela glória de David e dos nomes desconhecidos de deus.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Novo Mundo


A primavera já se encontrava no seu fim. O ano tinha dado quatro passos e agora estava perto de terminar de dar o quinto – estávamos em meados de maio de 1968, e Paris já se mostrava cansada de ver as cores das flores que, em março, tinham vindo como uma novidade aos nossos olhos acostumados ao branco frio do inverno.


Na rua Gay-Lussac, a juventude se reunia para conchavar. Como se fosse um código só nosso, sussurrávamos os nomes estrangeiros que idolatrávamos – bastava que alguém descrevesse a selva esverdeada de Che, o porto amarelado de Fidel ou as plantações de arroz esbranquiçadas de Mao, e todos os corações batiam velozes, em uníssono. Ainda que poucos de nós soubessem, de fato, o que aquelas letras a tantos quilômetros de distância, nos tais países do terceiro mundo, podiam significar.


Éramos uma multidão de estudantes escondidos atrás das barricadas feitas de blocos de pedras, vigas de aço e tapumes roubados do canteiro de obras da junção com a rua Ursulines. Éramos diversos revoltados, desgostosos, estávamos em greve e nossos olhos ardiam, porque o vento fraco da manhã ainda não tinha conseguido varrer do ar todo o gás lacrimogêneo das últimas batalhas. Gritávamos que o poder público era covarde. O poder público e o partido socialista também – pensávamos que os comunistas nos apoiariam, já que tínhamos conosco a classe popular, mas, em vez de encorajamento, líamos no L’Humanité o Partido nos apelidando de “agitadores” (e qual era o problema de se agitar um pouco as coisas naquela França quase bourbônica – religiosa, patriótica, autoritária –?).


Ah!, se fôssemos escrever a nossa história nos anais da França certamente nos descreveríamos como um raio de luz iluminando não só o Quartier Latin dos turistas, mas também as periferias escurecidas pelo descaso de que gozavam os negros da Argélia, que tinham vindo a nós como se vai a um deus salvador. Diríamos de nós mesmos que éramos uma brisa fresca soprando alucinada, um peixe colorido nadando no acinzentado Sena. Não tínhamos dúvida – estávamos vivendo um daqueles anos inesquecíveis da história da humanidade a que para sempre as gerações futuras se refeririam. E gostávamos dessa sensação de podermos pertencer tão gloriosamente ao porvir.


Mas toda essa glória só vivemos antes do endurecimento da repressão. Logo os soldados do então presidente De Gaulle surgiram nas ruas como macacos ensandecidos, como gorilas alucinados, e de nada adiantava combatê-los – as pedras que atirávamos neles voltavam a nós três vezes mais fortes, como num contrafeitiço. Tínhamos ideais de sobra, mas faltava força aos nossos braços. Sem o apoio do Partido, voltamos, aos poucos, para nossas casas. Nossas mães cuidaram das feridas que trazíamos no corpo como troféus e, por mais que nos chamassem de loucos, ainda assim deixavam que víssemos nos seus olhos o brilho de um orgulho maternal.


A revolução acabou tão repentinamente quanto tinha começado. Mas a morte nem sempre marca o final de uma história, e logo percebemos que, apesar de termos sido derrotados, tínhamos feito tremerem as bases da França e de toda uma geração. Os livros no mundo inteiro, em países que nem sabíamos que existiam, agora falavam de nós como se fôssemos heróis. Talvez tenhamos mudado o mundo – gostamos de pensar que sim. E o novo mundo vinha a nós maravilhoso, repleto de valores de igualdade, plenitude sexual e respeito aos direitos humanos.
Sorríamos.

 
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