A primavera já se encontrava no seu fim. O ano tinha dado quatro passos e agora estava perto de terminar de dar o quinto – estávamos em meados de maio de 1968, e Paris já se mostrava cansada de ver as cores das flores que, em março, tinham vindo como uma novidade aos nossos olhos acostumados ao branco frio do inverno.
Na rua Gay-Lussac, a juventude se reunia para conchavar. Como se fosse um código só nosso, sussurrávamos os nomes estrangeiros que idolatrávamos – bastava que alguém descrevesse a selva esverdeada de Che, o porto amarelado de Fidel ou as plantações de arroz esbranquiçadas de Mao, e todos os corações batiam velozes, em uníssono. Ainda que poucos de nós soubessem, de fato, o que aquelas letras a tantos quilômetros de distância, nos tais países do terceiro mundo, podiam significar.
Éramos uma multidão de estudantes escondidos atrás das barricadas feitas de blocos de pedras, vigas de aço e tapumes roubados do canteiro de obras da junção com a rua Ursulines. Éramos diversos revoltados, desgostosos, estávamos em greve e nossos olhos ardiam, porque o vento fraco da manhã ainda não tinha conseguido varrer do ar todo o gás lacrimogêneo das últimas batalhas. Gritávamos que o poder público era covarde. O poder público e o partido socialista também – pensávamos que os comunistas nos apoiariam, já que tínhamos conosco a classe popular, mas, em vez de encorajamento, líamos no L’Humanité o Partido nos apelidando de “agitadores” (e qual era o problema de se agitar um pouco as coisas naquela França quase bourbônica – religiosa, patriótica, autoritária –?).
Ah!, se fôssemos escrever a nossa história nos anais da França certamente nos descreveríamos como um raio de luz iluminando não só o Quartier Latin dos turistas, mas também as periferias escurecidas pelo descaso de que gozavam os negros da Argélia, que tinham vindo a nós como se vai a um deus salvador. Diríamos de nós mesmos que éramos uma brisa fresca soprando alucinada, um peixe colorido nadando no acinzentado Sena. Não tínhamos dúvida – estávamos vivendo um daqueles anos inesquecíveis da história da humanidade a que para sempre as gerações futuras se refeririam. E gostávamos dessa sensação de podermos pertencer tão gloriosamente ao porvir.
Mas toda essa glória só vivemos antes do endurecimento da repressão. Logo os soldados do então presidente De Gaulle surgiram nas ruas como macacos ensandecidos, como gorilas alucinados, e de nada adiantava combatê-los – as pedras que atirávamos neles voltavam a nós três vezes mais fortes, como num contrafeitiço. Tínhamos ideais de sobra, mas faltava força aos nossos braços. Sem o apoio do Partido, voltamos, aos poucos, para nossas casas. Nossas mães cuidaram das feridas que trazíamos no corpo como troféus e, por mais que nos chamassem de loucos, ainda assim deixavam que víssemos nos seus olhos o brilho de um orgulho maternal.
A revolução acabou tão repentinamente quanto tinha começado. Mas a morte nem sempre marca o final de uma história, e logo percebemos que, apesar de termos sido derrotados, tínhamos feito tremerem as bases da França e de toda uma geração. Os livros no mundo inteiro, em países que nem sabíamos que existiam, agora falavam de nós como se fôssemos heróis. Talvez tenhamos mudado o mundo – gostamos de pensar que sim. E o novo mundo vinha a nós maravilhoso, repleto de valores de igualdade, plenitude sexual e respeito aos direitos humanos.
Sorríamos.

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